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O LIVRO DOS LIVROS

Por Johny Mange

 

I. ORIGEM DA BÍBLIA e COMO A BÍBLIA CHEGOU ATÉ NÓS?

 

         Alguns argumentam que as palavras da Bíblia não foram escritas desde o “início” (por Adão e Eva); sendo assim, tendem a minimizar o caráter de veracidade das Escrituras Sagradas. Mas sabemos que as histórias bíblicas, antes de serem escritas, foram transmitidas oralmente e especialmente confiadas ao povo judeu, povo escolhido de Deus: “As palavras de Deus lhe foram confiadas” (Rm 3.2). Vemos em Jó 15.18 - que é tido, segundo os estudiosos, como o livro mais antigo da Bíblia - que os sábios ouvindo a palavra, não a ocultaram, mas a anunciaram.

      A fim de comprovarmos a verossimilhança dessa transmissão verbal da Palavra de Deus, verifiquemo-la em ordem genealógica: 

 

  • Adão transmitiu a história da criação a Lameque, pai de Noé;

  • Lamaque a transmitiu para seu filho Noé;

  • Noé, sabendo das grandezas de Deus, acrescentando as histórias do Dilúvio e a confusão de línguas; transmitiu-as a Abraão;

  • Abraão as transmitiu ao seu neto Jacó;

  • Jacó, ao narrar tudo para o seu neto Coate, pôde acrescentar as suas próprias experiências em Betel e no vau de Jaboque;

  • Coate pôde relatar toda a história para a Anrão;

  • E, por fim, Anrão transmitiu a Palavra de Deus para seu filho Moisés, e este foi inspirado e ordenado por Deus que a escrevesse num livro (Ex 17.14). Moisés escreveu as primeiras palavras do Pentateuco por volta de 1491 a.C. 

 

 

1. O Cânon Sagrado

 

         Cânon, cânone ou canonicidade diz respeito aos livros normativos ou autorizados inspirados por Deus para inclusão nas Escrituras Sagradas. A canonicidade é determinada por Deus. Não são a antiguidade, a autenticidade ou a comunidade religiosa que tornam um livro canônico ou autorizado. Um livro é valioso porque é canônico, e não canônico porque é ou foi considerado valioso. Sua autoridade é estabelecida por Deus e simplesmente descoberta pelo povo de Deus.

Vejamos o cânone da Bíblia Sagrada:

 

         a) O Cânon do Antigo Testamento. O Cânon do Antigo Testamento se completou por volta de 400 a.C. Autores contemporâneos, como Flávio Josefo, mencionam todos os livros do Antigo Testamento e confirmam sua canonicidade. E mais: Temos a plena certeza de que o Antigo Testamento, tal como o conhecemos, foi aceito integralmente por Nosso Senhor. Ele fez referencia aos cinco livros da Lei (o Pentateuco). Também citou os profetas e os Salmos. As Escrituras hebraicas que Jesus utilizava são idênticas ao Antigo Testamento que utilizamos. O testemunho da autenticidade do Antigo Testamento é, portanto, incontestável. No entanto, o testemunho de Cristo exclui os apócrifos, dentre os quais, aqueles inseridos pela Igreja Católica — Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, Tobias, 1 e 2Macabeus, ainda acréscimos a Ester e Daniel. O termo “apócrifo” veio a ser usado, no século II, para designar os livros de origem desconhecidas ou talvez de autoridade secreta, de conteúdo espúrio ou herético, em oposição aos escritos aceitos pela Igreja. O Novo Testamento nem menciona esses livros.

 

        b) O Cânon do Novo Testamento. Já a formação do Novo Testamento levou apenas 100 anos, sendo, portanto, concluído em 100 d.C. Entretanto, houve a demora para o reconhecimento canônico, devido ao fato de sabiamente as igrejas exigirem provas de que todos os livros eram inspirados por Deus. Ademais, nesse tempo, vários livros apareceram com a pretensão de serem reconhecidos, os quais foram denominados “apócrifos”, cuja autenticidade não é reconhecida pelo magistério eclesiástico por não haver a confirmação da inspiração divina e, principalmente, por apresentarem contradições e equívocos. A decisão quanto ao cânon definitivo do Novo Testamento foi tomada no Concílio de Hipona, no ano 393, e confirmada pelo Concílio de Catargo, quatro anos depois. Foram os aprovados os 27 livros. O Cânon do Antigo Testamento também foi aceito pela Igreja. Logo, a Bíblia estava completa.

 

 

II. PRODUÇÃO DO ANTIGO E NOVO TESTAMENTO

 

1. Línguas

 

         a) Antigo Testamento: O hebraico foi a língua principal utilizada na escrita do Antigo Testamento. Entretanto, como o aramaico foi utilizado em todo o período do Antigo Testamento, seu uso refletiu-se em alguns textos nos nomes geográficos citados na Bíblia.

 

         b) Novo Testamento: O Novo Testamento foi escrito em grego. Todavia, como Jesus e Seus discípulos falavam aramaico, houve influência desse idioma em algumas expressões idiomáticas. Assim como, do hebraico e do latim.

 

2. Material de Escrita Utilizado na Época

 

        Alguns materiais foram utilizados para a escrita nos tempos antigos, como: linho, óstraco (Jó 38.14; Ez 4.1), madeira, papiro, pergaminho, pedra (Ex 24.12; Js 8.30-32) e tábuas recobertas de cera (Is 8.1; Lc 1.63). Entretanto, destes citados, há 2 principais: papiro e pergaminho.

 

         a) Papiro: é um papel de cor amarela, reduzido a tiras, feito do caule de uma planta também chamada papiro.

 

      b) Pergaminho: é um papel constituído de pele de animais curtida e preparada para ser utilizada com a finalidade da escrita. O pergaminho é mais duradouro do que o papiro.

 

 

 

III. A BÍBLIA SAGRADA É REALMENTE DIVINA?

 

Sim! Vejamos alguns dos porquês:

 

  1. A Bíblia foi inspirada (soprada) por Deus (2Tm 3.16-17)

  2. Jesus descreveu as Escrituras como “...a palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4; 7.10);

  3. Os escritores da Bíblia Sagrada afirmaram serem direcionados pelo Espírito Santo (2Sm 23.2; 2Pd 1.21);

  4. O testemunho de Jesus comprova o caráter divino das Escrituras pois Ele demonstrou ser divino: Até mesmo os incrédulos acreditam que Jesus foi um mestre divino; e os muçulmanos acreditam que ele foi um verdadeiro profeta de Deus por causa de Seus muitos milagres. Ele provou ser o Messias, o Cordeiro de Deus, podendo afirmar: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30);

  5. Cumprimento e Previsões de Profecias: Podemos ver a profecia de Isaías 7.14 se cumprindo em Mateus 1.23; a profecia de Oséias 11.1 se cumprindo em Mateus 2.14; a profecia de Daniel 9.25 se cumprindo em Lucas 3.1-23; e a profecia de Miquéias 5.2 se cumprindo em Lucas 2.4-7.

      Há uma harmonia divina entre Antigo Testamento e Novo Testamento, a qual somente se daria se os distintos escritores da Bíblia Sagrada fossem todos inspirados por Deus.

 

 

IV. POR QUE LER O ANTIGO TESTAMENTO?

 

       Há uma asserção que permeia o meio cristão: não há necessidade de ler os livros do Antigo Testamento. A principal justificativa para tal afirmação se deve à argumentação de que o Antigo Testamento é constituído pela Lei, enquanto o Novo, pela Graça. Logo, como estamos na dispensação da Graça, os cristãos acreditam que seria algo retrógrado lê-lo.

      Todavia, é coerente lembrarmos que o Antigo Testamento era a Bíblia que Jesus lia, estudava, compreendia e aplicava em Sua prática diária, como Homem e em Seu ministério terreno.

     Veremos abaixo alguns motivos pelos quais a leitura do Antigo Testamento é atemporal e necessária, incluindo os dias atuais:

 

  1. Os livros do Antigo Testamento eram lidos, praticados e ensinados por Jesus, o Filho de Deus (Lc 4.16-20; Mt 5.17; Lc 24.44-25; Lc 24.27); 

  2. Os livros do Antigo Testamento são divinamente inspirados (2Tm 3.16; Mc 7.13; Lc 24.44; Mc 12.35-36);

  3. Ao lermos os livros do AT, descobrirmos a Supremacia de Deus (Sl 33.6; Gn 1.1; Ag 2.8-9; Sl 89.8; Zc 8.22; Gn 2.3; Gn 2.7);

  4. Para compreendermos o processo de criação do mundo e de toda a criação e termos respaldo para combatermos heresias concernentes a isso (Gn 1.1-31; Gn 2.1-25; Jo 1.1-14);

  5. Para conhecermos a história dos hebreus, povo escolhido de Deus, que influenciou de forma especial toda a História da Humanidade e, também, compreendermos as referências a eles no Novo Testamento. Vale a pena destacar que “citação” não necessita ser uma “transcrição”, pode se apresentar por meio de paráfrase - explicação de um texto com outras palavras – (Gn 12.1-9; Gn 17.1-22; Ex 8.1; Gl 4.22; Gl 4.26-28; Hb 6.13-15);

  6. Para conhecermos o modo da salvação pela Lei e valorizarmos a época da graça (Rm 3.221-31; Rm 4.1-25; Rm 5.1; Ef 2.1-10; Hb 9.15; 1Co 1.4);

  7. Para termos respaldo para argumentarmos sobre o princípio do mundo e sobre as profecias que se cump riram no Novo Testamento e as que ainda se cumprirão no futuro (Is 7.14; Mt 1.23; Dn 12.4). 

 

 

V. A IMPORTÂNCIA DO NOVO TESTAMENTO COMO REGRA DE FÉ E PRÁTICA CRISTÃ

 

1. Para conhecermos a Jesus Cristo, o Filho de Deus, o qual é “o caminho, a verdade e a vida”;

2. Para aprendermos sobre as doutrinas cristãs; 

3. Para conhecermos as ordenanças de Jesus (batismo e Santa Ceia);

4. Para aprendermos valores éticos e morais;

5. Para recebermos orientação de Jesus sobre discernir os falsos profetas;

6. Para ficarmos cientes da importância do IDE de Jesus;

7. Para conhecermos e reconhecermos os sinais do fim, vigiando em todo o tempo.

 

 

VI. PRINCIPAIS ARGUMENTOS DOS CRÍTICOS DA BÍBLIA

 

     Alguns críticos da Bíblia se apoiam em determinados argumentos, a fim de desafiar a inspiração e a inerrância da Bíblia Sagrada. Veremos abaixo alguns dos equívocos deles ao interpretarem as Sagradas Escrituras: 

 

  1. Afirmam que a Bíblia é “culpada”, até terem a prova do contrário dessa afirmação: Pelo Código Penal, as pessoas não são consideradas culpadas, permanecendo presas e tendo que ir ao Tribunal “provar” a sua inocência para depois alcançarem a liberdade. Ao contrário: as pessoas são livres e, se forem pegas em flagrante e/ou serem acusadas de cometerem um delito, aí começa-se a investigação. Se realmente houver provas de que essa pessoa é culpada, ela receberá a pena estipulada.

Agora, raciocinemos: Por que a Bíblia, um livro que oferece alívio para os oprimidos (Mt 11.28), consolo para os abatidos (Sl 119.50), cura para os doentes e enfermos (Mt 8.7)... E inocência para os culpados mediante o sacrifício vicário e salvífico de Jesus Cristo (Jo 3.16), merece ser taxada de “culpada” até que seja provado o contrário? Pelo raciocínio lógicoa Bíblia é “inocente” até que se prove o contrário!

        E a maior prova é que ela foi inspirada por Deus, e Ele não pode cometer erros (Hb 6.18; Tt 1.2): logo ela não possui erros e muito menos culpa! Vemos que acusá-la de culpada comprova ainda mais a inocência dela por uma mensagem sua, estabelecendo-se um paralelo: assim como Jesus Cristo só desejou fazer o bem para toda a sociedade e foi acusado, julgado e condenado como malfeitor, pois foi considerado “culpado”; assim acontece com a Bíblia Sagrada, afinal, ela quem continua a propagar o bem pregado e realizado por Cristo!

         Enfim, como a Bíblia pode ser culpada, se traz esperança divina para as pessoas e lhes ensina as melhores lições de moral, ética e convívio social?

 

 

2. Afirmam que a Bíblia aprova tudo o que ela registra: Afirmar que a Bíblia Sagrada aprova tudo o que ela registra é, sem dúvida, uma aberração interpretativa da crítica. Realizando novamente uma analogia com o Código Penal: se lá são registrados delitos para conhecimento da população, isso significa que este documento concorda com estes? Não, pois lá também são registradas as respectivas penas como evidência de que os delitos são registros para os quais não há aprovação. Ora, com a Bíblia também é assim! Vejamos: ao citar o pecado de imoralidade de Davi, a Bíblia não está o aprovando e, por conseguinte, ensinando as pessoas a serem assim! Pelo contrário: o objetivo é enfatizar as terríveis consequências que o pecado pode trazer.

        Deus mandou um profeta chamado Natã para confrontar Davi com seu pecado (2Sm 12.1-14). Ele contou a história de um homem pobre que perdeu sua única ovelha por causa da maldade de um vizinho rico. Enfurecido, o Rei Davi declarou que este homem teria que pagar quatro vezes o valor da ovelha, além de ser morto pelo crime. Foi quando Natã disse que esse homem rico era Davi, acusando-o de pecados contra Deus, contra Urias e contra Bate-Seba. Vemos que Deus não tirou a vida de Davi, mas ele “pagou quatro vezes” (tal como ele declarou para o homem da história contada pelo Profeta Natã) a morte de Urias com a morte de seus próprios filhos: 1.ª) O filho que teve com Bate-Seba nasceu e morreu logo depois (2Sm 12.15-25); 2.ª) Amom foi morto pela espada de Absalão (2Sm 13.23-36); 3.ª) Joabe matou o rebelde Absalão (2Sm 18.9-18); 4.ª) Depois da morte de Davi, Salomão mandou que Adonias fosse morto (1Re 2.13-25).

    É uma questão de lógica: Se a Bíblia concordasse com tais atos, “contradizendo os mandamentos de Deus”, não aconteceriam as consequências tão terríveis supracitadas.

       Portanto, concluímos que na Bíblia Sagrada há relatos de pecados que não são aprovados, mas que servem de experiência para todos que a leem, a fim de que não desobedeçam à Palavra de Deus. Afinal, sabemos que Deus perdoa o pecador (Sl 103.3), mas as consequências do pecado existem (Gl 6.7).

 

3. Esquecem-se do contexto (Conjunto de circunstâncias em que se situa a passagem bíblica) do texto (Passagem da Escritura), o que se torna um pretexto (Razão suposta ou aparente, destinada a cobrir ou disfarçar a verdadeira): interpretar frases isoladas em um texto podem causar equívocos na interpretação. Exemplo: “Não há Deus” (Sl 14.1). Se formos interpretar essa frase isoladamente, afirmaremos que o Cristianismo é uma “ilusão”. Mas veja que o texto completo é: “Diz o insensato no seu coração: Não há Deus”. Agora, com a interpretação correta, entendemos que quem afirma que não há Deus, é uma pessoa sem razão, que não pensa e/ou age conforme o bom senso.

 

4) Mencionam algo que ainda não foi “explicado” e o classificam como “inexplicável”, confundindo as “falíveis” interpretações humanas com a “infalível” revelação de Deus: Há críticos que, ao se depararem com questões complexas na Bíblia Sagrada, não conseguindo encontrar uma explicação rapidamente, começam a declarar que para tais questões não há uma explicação. Entretanto, isso não é coerente! Imagine se os grandes cientistas, escritores desistissem no primeiro grau de dificuldade hermenêutica, isto é, dificuldade de interpretação de um texto, de uma fórmula? Claro, sabemos que o mundo não progrediria... Assim é com a vida espiritual de quem não procura, gradativa e constantemente, ler, estudar as Sagradas Escrituras. A própria Bíblia Sagrada afirma que “não há limites para fazer livros” (Ec 12.12); sendo assim, sempre haverá livros que nos ajudam na compreensão da Bíblia, abordando novas pesquisas arqueológicas que auxiliem na elucidação de alguns costumes, línguas e culturas bíblicas, por exemplo.

        Considerando, então, que o conhecimento humano não está “acabado”, “pronto”, pois é falho e mutável, não podemos transferir essas características para a autoridade bíblica. Afinal, se outrora determinadas pessoas apresentavam opiniões distintas das atuais para interpretação de uma passagem bíblica – ou até mesmo divergências na mesma época - não significa que a Bíblia é contraditória, que é mutável; mas sim, que a interpretação humana é limitada, é falível. A interpretação humana é falha, mas a Palavra de Deus é perfeita (Sl 19.7). 

 

 

Bibliografia

 

GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética: respostas aos críticos da fé cristã. Trad. Lailah de Noronha. São Paulo: Editora Vida, 2002.

 

_______________. Introdução Bíblica. Trad. Oswaldo Ramos. São Paulo: Editora Vida, 2006.

 

GEISLER, Norman; HOWE, Thomas A.  Manual Popular de dúvidas, enigmas e contradições da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999.

 

MEIN, John. A Bíblia e como chegou até nós. 6.ª edição atualizada e ampliada pelo Departamento de Publicações Gerais. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1986.

 

GILBERTO, Antonio. A Bíblia através dos Séculos: uma introdução. Rio de Janeiro: CPAD, 1986.

 

JOINER, Eduardo. Manual Prático de Teologia. 2.ª Ed. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2007.