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O Serviço e o Exercício da Carreira Militar São Compatíveis com a Fé Cristã?

Por Johny Mange

 

 

1 – As Duas Pátrias do Cristão

 

          A Bíblia ensina que o cristão é cidadão de duas pátrias: a terrestre e a celeste (Mt 22.21; Fp 3.20).

 

        a) A Pátria terrestre. Como cidadãos da pátria terrestre, temos também compromissos com ela, porquanto uma cidadania não anula a outra. Nós, pois, como cidadãos, devemos servir à Pátria da melhor maneira possível, justamente porque somos cristãos, já que assim ensina a Palavra de Deus: "Admoesta-os a que se sujeitem aos principados e potestades, que lhes obedeçam, e estejam preparados para toda a boa obra" (Tt 3.1). O próprio Jesus deu exemplo de Sua conduta na sociedade, pagando o imposto. Conquanto dono de tudo, pagou, mesmo sem dever (Mt 17.24-27).

 

          b) A Pátria Celeste. Quanto à Pátria Celeste, esperamos a Vinda do Senhor Jesus, pois, nesta, os vivos serão arrebatados e receberão a glorificação (1Co 15.51,52), os mortos hão de ressurgir e ser glorificados (1Ts 4.16,17). Entraremos transformados e glorificados na Cidade Santa (Ap 3.12; Fp 3.20; Sl 24.7-10; Ap 21), veremos Cristo face a face (1Jo 3.2), sentaremos à mesa das Bodas com Abraão, Isaque e Jacó — representante dos santos do Antigo Testamento (Mt 8.11). A Nova Jerusalém é a eterna morada, o santuário celestial na qual os santos morarão e servirão o Deus Altíssimo pelos séculos dos séculos (Ap 21.2,3).

 

 

2 ― A Palavra de Deus está acima das leis humanas

 

           a) A Santa Escritura: Suprema Lei Celestial. Quando a legislação de qualquer país for incompatível com o Cristianismo, a Palavra do Senhor - que é a Santa Lei Divina (Rm 7.12), cuja está acima de quaisquer leis humanas (Mc 13.31), deve ser obedecida e os cristãos manter-se fiéis a Ela tão só (At 5.29). Recorda-se do exemplo de Daniel na cova dos leões? (Dn 6). E os três jovens hebreus ante o forno de fogo ardente? (Dn 3). Pois é... As leis que obrigam o crente a renunciar a sua fé, ou que contrariem as verdades fundamentais da fé cristã, não devem ser obedecidas (At 4.19).

 

          b) As autoridades constituídas por Deus. Salvo tais casos, toda autoridade é constituída por Deus; de fato, não reconhecer as normas (que não contrariem as verdades da Bíblia) baixadas pelo Estado com o propósito de preservar a ordem e o bem-estar da sociedade, é uma revelia contra os governantes e diametralmente contrária a Deus, pois a autoridade "é ministro de Deus para o teu bem" (Veja Romanos 13.1-7). No que concerne a este texto, "toda alma" é o mesmo que "todo o homem", e "potestade" é o mesmo que "autoridade". Isso é corroborado na Tradução Brasileira: Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores. Pois não há autoridade que não venha de Deus (Rm 13.1).

 

 

3 ― Pode o crente exercer quaisquer ofícios da carreira militar e estar em comunhão com a Igreja?

 

          Não há nenhuma proibição na Bíblia no que tange ao serviço militar e ao exercício da carreira militar. Os que proíbem são, justamente, os pastores e obreiros estúpidos, teimosos, ignorantes e curtos de inteligência, já que a Escritura, neste ponto, ensina totalmente diferente. Não podemos querer que a Bíblia se amolde às crenças de nossas denominações; entretanto, que Ela mesma dê a palavra final em todas as questões: Não acrescentareis à Palavra que vos mando, nem diminuireis dEla, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando (Dt 4.2).

         No Novo Testamento, há vários exemplos de cristãos fieis que eram militares.

 

         a) A recomendação do profeta João Batista aos militares. Encontramos, no Novo Testamento, João Batista recomendando aos soldados que fossem bons servidores do Estado, e não que renunciassem o cargo militar por causa da fé que aceitaram: E chegaram também uns publicanos, para serem batizados, e disseram-lhe: Mestre, que devemos fazer? E ele lhes disse: Não peçais mais do que o que vos está ordenado. E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo [remuneração básica dos oficiais militares]. E, estando o povo em expectação, e pensando todos de João, em seus corações, se porventura seria o Cristo (Lc 3.12-15, grifo acrescentado).

 

         b) O Apóstolo Pedro batiza e recebe em comunhão o comandante militar – Cornélio. Embora Cornélio não fosse um judeu prosélito (convertido ao Judaísmo), subentende-se que ele acreditava no único e verdadeiro Deus e em ensinamentos morais e éticos, contudo, faltava conhecer Jesus Cristo — o caminho que conduz à vida eterna (At 10.2; Jo 17.3). Pedro é enviado por Deus à casa de Cornélio, conseguintemente, prega o plano de salvação e Cornélio se converte (At 10.34-43), recebe o batismo no Espírito Santo (At 10.44-46), é batizado nas águas (At 10.48) e ele continua sendo centurião (cap. 11). Não está escrito que Pedro obrigou Cornélio a abandonar a Centúria. O que era centúria? Era a unidade do exército romano, formada por 100 soldados militares, sob o comando do centurião. Quem era o centurião? O comandante militar. Cornélio, portanto, era centurião — comandante militar de 100 soldados (At 10.1). Cornélio e todos os 100 soldados trabalhavam armados, uma vez que a arma era a espada. Se fosse pecado servir o exército e seguir a carreira militar, Pedro não batizaria Cornélio e não o receberia em comunhão, deixando o exemplo à Igreja; todavia, o relato do texto bíblico desmantela completamente esse pensamento.

 

        c) Jesus e o centurião de Cafarnaum. Jesus não mandou que o centurião de Cafarnaum abandonasse o cargo (Mt 8.5-13). Pela atitude que o centurião tomou (Mt 8.8) depreende-se que ela era um homem humilde, talvez até religioso, visto que tinha o testemunho dos judeus (Lc 7.5). A demonstração de fé dele — a qual impressionou o Mestre Jesus — foi exatamente acerca do serviço militar: Pois também eu sou homem sob autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu criado: Faz isto, e ele o faz (Mt 8.9). Se o Filho de Deus pregasse contra o serviço militar (ou contra o exercício da carreira militar) Ele jamais ficaria maravilhado com as palavras militares do centurião; no entanto, muito se admirou, maravilhando-se da fé do militar de Cafarnaum (Mt 8.10), e ainda curou o criado deste militar (Mt 8.13).

 

 

4 – O serviço e o exercício da carreira militar não contrariam o mandamento “Não matarás” (Ex 20.13), reafirmado no Novo Testamento (Rm 13.9)?

 

          Finalmente, pode surgir a pergunta: Mas se o militar matar alguém no exercício de seu trabalho? Os que partem desse pressuposto, na maioria das vezes, citam o mandamento “Não matarás” (Ex 20.13), mandamento que foi confirmado na Nova Aliança (Rm 13.19). Destarte, ufanam-se de estarem certos, e acham que podem calar a boca do mundo. Dentre tais grupos aberrantes, temos as Testemunhas de Jeová e até denominação brasileira de origem pentecostal. O engraçado é que muitos proíbem os servos de Deus — dentre os quais soldados, capitães, coronéis, generais, tenentes, etc. — de exercerem atividades e estarem em comunhão nessas igrejas, porque, além de poderem matar alguém no exercício da profissão — em nome da lei, trabalham armados e com cassetetes; andam em viaturas e camburões; todavia, tais ministros e denominações fazem uso desses mesmos oficiais para guardarem suas casas e seus templos e estacionamentos; seus prédios, etc. Interessante, não? Vai uma bastonada da Palavra: Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós (Rm 2.21,22,24). Chega de engano! Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade (Tg 2.12).

         Verdadeiramente o Senhor não é Deus de confusão, mas de paz (1Co 14.33). O Senhor é a paz — Jeová Shalon (Jz 6.24). No Sermão do Monte, Cristo Jesus asseverou: Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo... Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus (Mt 5.21,44,45; cf. 1Co 3.3). Incontestavelmente é confirmado que não podemos nos meter em confusões, brigas, contendas, dissensões, nem tampouco tirar a vida de ninguém. A Deus pertence a vida (Sl 36.9), e somente Ele pode tirar (Dt 32.39; Jó 1.21). Isso mostra algo individual, que parte de nós — em nossas questões — e não o fato de instituir a justiça, promovendo a pena capital sobre o malfeitor.

          A bem da verdade, a palavra hebraica usada na proibição deste mandamento — de Êxodo 20.13 — não é o sentido da palavra costumeira que usamos para descrever o ato de “matar” ― harag. A palavra usada é ratsach (hb.) — termo específico para assassinar. Ao pé da letra, o mandamento quer dizer: “Não assassinarás”. Assassinar é matar uma pessoa intencionalmente, premeditadamente; é ser homicida. Logo, o Todo-Poderoso não está proibindo o uso da justiça no exercício da profissão. Repetindo: “uso da justiça”, visto que Deus é justo, igualmente é justiça (Gn 18.25; Sl 11.7). A proibição é tocante ao assassinato de alguém por mero capricho, ódio, rancor ou vingança. Não há proibição de exercer a justiça, nos ditames da lei, na passagem supracitada.

 

           a) Espada – símbolo da justiça romana. As autoridades constituídas têm a autoridade de Deus para usar a “espada”. Espada era o símbolo romano para a justiça e para a pena capital. A Bíblia manifesta: Porque ela [a autoridade superior] é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde [em vão] a espada; porque é ministro de Deus, e vingador para castigar o que faz o mal. Portanto é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente pelo castigo, mas também pela consciência (Rm 13.4,5 – grifo acrescentado).

 

           b) O castigo dos malfeitores é louvável à justiça de Deus. Antes de mais nada, é preciso ter em mente que Deus ama grandemente o pecador (Jo 3.16; 1Jo 4.19). Ele deseja que os homens se arrependam e deixem seus maus caminhos (At 17.30; Is 55.7). O sangue de Jesus está à disposição a fim de purificar todos os pecadores (1Jo 1.7). Entretanto, como muitos não seguem o caminho da verdade, abandonando as práticas erradas para seguir a Palavra de Deus (Jr 3.12), o Altíssimo exige o castigo dos malfeitores a caso de estabelecer a ordem pública. Afirma o Livro de Deus: Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem. Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos; como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus (1Pd 2.13-16 – grifo acrescentado).

 

 

Bibliografia 

 

SILVA, Esequias Soares da. Como Responder às Testemunhas de Jeová: Comentário exegético e explicativo — vol. 1. 3.ª Ed. São Paulo: Candeia, 1995, pp. 361-372.