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Maldição Hereditária:

Falsa Doutrina com Aparência de Piedade

Por Johny Mange

 

Introdução

         A doutrina da Maldição Hereditária enquadra-se nas palavras inspiradas do Apóstolo Paulo: “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela” (2Tm 3.5). Ela tem “aparência” de “batalha espiritual”, quando seus promotores — “misericordiosos” — querem sanar os problemas de inúmeros crentes decretando quebras de “males passados”. Todavia, só tem máscara: é heresia, é demoníaca, porque invalida o perfeito sacrifício de Cristo na cruz.

 

 

1 – O Surgimento da Heresia

 

          Nos dias do sacerdote e profeta Ezequiel, contemporâneo do profeta Jeremias no cativeiro babilônico, entre os anos 595 e 574 a.C., havia uma crença entre os hebreus em que os pecados praticados pelos pais — em desrespeito às normas da religião judaica — eram transportados como maldição para os filhos. Asseguravam-se, entretanto, numa parte do segundo mandamento, em Êxodo 20.5. De fato, existia um provérbio entre a população hebreia: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram” (cf. Ez 18.2). A expressão “uvas verdes” é uma referência às transgressões praticadas pelos pais, e “dentes embotados” — transmite a ideia da consequência, isto é, os filhos pagariam pelos erros de seus antepassados. Deus proibiu tal dito entre os judeus: “Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que nunca mais direis esta parábola em Israel” (Ez 18.3). Pode até ter havido casos de credulidade nessa teoria no decorrer da história; todavia, essa crendice, em massa, não mais repercutiu. Dissipou-se.

       A doutrina da Maldição Hereditária ressurgiu através de alguns teólogos norte-americanos em meados de 1970. Concomitantemente nos anos oitentas, ganhou força e popularidade através da obra “Break the Generation Curse” — Quebra da Maldição Hereditária —, da autoria de Marilyn Hickey — professora de teologia, palestrante, escritora e pregadora. No Brasil, ganhou campo através dos neopentecostais, de sorte que se destacam os propagadores dessa doutrina: Jorge Linhares, Robson Rodovalho, Neuza Itioka, Valnice Milhomens, Daniel Mastral, Agenor Duque, etc.

            Atualmente, existem muitas literaturas para esclarecer o assunto, já que é conflitante entendê-lo. Um dos nomes mais proeminentes, na área da escrita, para divulgar essa doutrina é Rebeca Brown, nos livros: “Maldições Não Quebradas” e “Ele veio para Libertar os Cativos”.

 

 

2 – A Conceituosidade da Maldição Hereditária

 

         a) O que é maldição? É a “ação ou estado de amaldiçoar; palavras que expressam o desejo de que algo ruim aconteça ou algo; algo que denota consequências desagradáveis”[1].

 

          b) O conceito da Maldição Hereditária. Consoante o Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo:

 

      É a corrente que ensina que, mesmo após a conversão, o cristão que não quebrar maldições herdadas dos antepassados, pedindo perdão dos pecados por eles cometidos, não conseguirá jamais se libertar de certos vícios, como o alcoolismo, as drogas, o adultério, a pornografia, etc.[2]

 

          Ou seja, mesmo depois da aceitação de Cristo como Salvador, as maldições não são quebradas. Certos problemas — devastadores da sociedade — são provenientes de seus ascendentes (pais, avós, bisavós, trisavós), etc., e arruínam-se em seus descendentes (filhos, netos, bisnetos, trinetos). São maldições de família, e, por conta disso, é assolada a maior parte da população, incluindo crentes. Problemas de depressão, alcoolismo, homossexualidade, ignorância, drogas, divórcio, brigas, tendência suicida e assim por diante, são provas — segundo alguns — que as maldições passam de pai para filho, de geração a geração.

             Segundo Jorge Linhares — um dos pregadores do ensino em apreço:

 

           A maldição é a autorização dada ao diabo por alguém que exerce autoridade sobre outrem, para causar dano à vida do amaldiçoado (...). A maldição é a prova mais contundente do poder que têm as palavras. Prognósticos negativos são responsáveis por desvios sensíveis no curso da vida de muitas pessoas, levando-as a viver completamente fora dos propósitos de Deus (...). As pragas se cumprem.[3]

 

             Conforme Robson Rodovalho — difusor de tal doutrina:

         

         Maldição são espíritos que visitam as famílias trazendo morte prematura, adultério, abuso sexual, violência, enfermidade etc. Devemos até fazer nossa árvore genealógica. Como dissemos antes, herdamos e possuímos a herança genética de até dez gerações… Temos que interceder e pedir perdão por pecados que aqueles antepassados cometeram, e quebrar os pactos que fizeram.[4]

     

 

          Rebeca Brown — um dos maiores vultos na exposição da Maldição Hereditária na atualidade, e perita no assunto — define:

 

          Tais problemas afetam igrejas inteiras, assim como a vida de pessoas em particular. Muitas igrejas caracterizam-se por nelas ocorrerem muitos divórcios e outros problemas dessa ordem em sua membresia. Muitos lutam por anos, mas nunca prosperam nem crescem espiritualmente. Com frequência se dividem e mudam sempre de pastor. Mesmo quando parece que passam por um período de avivamento e de crescimento, logo tudo se perde: muitos membros saem, e a igreja acaba voltando à condição em que estava antes. Por que esse ciclo destrutivo ocorre? Tais situações desencorajadoras podem resultar de vários fatores diferentes, mas uma razão, que normalmente é despercebida, é haver uma maldição na vida de alguém, ou em sua família, que nunca foi quebrada. Muitas igrejas estão também debaixo de maldições. Esta é uma área que tem sido muito negligenciada no ensino cristão hoje em dia.[5]

 

        c) Os outros nomes da Maldição Hereditária. Várias expressões são usadas para nomear a Maldição Hereditária, tais como “Maldição de Família”, “Pecado de Geração”, “Maldição de Geração” e “Maldição não Quebrada”.

 

 

3 – Meios de Quebrar as Maldições de Família

 

           Conforme os pregadores da Maldição Hereditária, há caminhos certos a trilhar para o rompimento desse mal. Dentre tantos meios apregoados em várias denominações, expusemos os principais.

 

           a) Descobrir as causas através de conversas e indicar livros de autores especialistas no assunto. Faz-se necessário inteirar-se das áreas de batalha espiritual e quebra de maldição por pessoas capacitadas. Não são todos os cristãos que podem desfazer esse mal, ainda que usem o Nome de Jesus. Quem está debaixo da Maldição de Família deve confessar — seja em conversas longas, seja em cursos especializados, seja em campanhas — toda a sua conduta, expor problemas de infância, palavras que a influenciaram viver assim, revelar acontecimentos desastrosos durante a vida, etc. Algumas igrejas indicam livros de especialistas no assunto, a fim de a pessoa ler e entender a Maldição de Geração que a afeta. Seguidamente, orará e buscará a libertação. Há igrejas que apenas realizam campanhas para tal fim.

 

        b) Fazer correntes, campanhas e confessar os erros dos antepassados para Deus. Trata-se de lembrar todas as palavras contrárias lançadas pelos pais, avós, etc. em momentos gritantes da vida. É mister recordar, ainda, o procedimento do pai e da mãe no passado, isso mesmo antes da concepção. Caso seja necessário, precisa-se fazer — até mesmo — a árvore genealógica da família, a caso de ver onde reside o mal. De mais a mais, indagar sobre a causa de tanta perturbação e a respeito de não conseguir obter a libertação. Por consequência, vêm as correntes e as campanhas para total quebra do jugo. Esse elo não é rompido através da leitura da Santa Palavra, nem de entoar louvores inspirados, nem do repúdio ao pecado, nem da busca incessante nos cultos de oração, nem da ida à igreja, nem pelo jejum, etc. Só é destruído pelas correntes e campanhas específicas; ademais, em tais campanhas e/ou correntes, são feitos propósitos de valores exorbitantes, através de “objetos de fé” que lhe são entregues, pois a pessoa deve “sacrificar” e “lutar” duma maneira ou doutra para obtenção da quebra dos males na família.

 

          c) Determinação. É ordenar, decretar que a maldição não deve permanecer. É “bater o pé no chão” com firmeza e exprimir palavras otimistas, como exemplo: “Eu não aceito esse mal em mim”; “Eu determino a retirada da maldição dos meus pais”; “Eu nasci para vencer”; “Se for para ser cristão assim eu voltarei para o mundo”; “ou Deus me abençoa mudando a minha vida quebrando as maldições ou, então, me desviarei da igreja”; “Eu profetizo” “Eu quero mudança: eu decreto, eu ordeno, eu determino”.

 

          d) Amaldiçoar Satanás. Muitos xingam e insultam o Diabo, porque é o autor da maldição. Como o Adversário é culpado, pois fez os antepassados terem um viver desgraçado, deve receber nomes e expressões que denotam sua conduta. Por isso, nas orações de quebra do elo da maldição, muitos vociferam: “Desgraçado, maldito, miserável, imundo, etc.” referindo-se a Satanás. Outros vão mais além, ao dizer: “Você não é nada...”

 

            e) Amarrar Satanás e a maldição. A pessoa amarrará Satã e o Pecado de Geração, de maneira que não hão de ter poder sobre ela nem sobre a família. Esta é a maneira exata, pois amarrados não podem afetar a parentela nem as gerações futuras. Depois da amarração, é mandado para o inferno — segundo dizem.

 

 

4 – O Sacrifício do Senhor Jesus

 

         As maldições jogadas, através do pecado, caíram sobre Jesus: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gl 3.13). Hoje, qualquer maldição contra o povo de Deus foi quebrada através da morte de Cristo, no brado: “Está consumado” (Jo 19.30). Ali “despojou os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo” (Cl 2.15).

           Todas as maldições do Antigo Testamento recaem sobre a impiedade, e não sobre os crentes: “Se não ouvirdes e se não propuserdes, no vosso coração, dar honra ao meu nome, diz o SENHOR dos Exércitos, enviarei a maldição contra vós, e amaldiçoarei as vossas bênçãos; e também já as tenho amaldiçoado, porque não aplicais a isso o coração” (Ml 2.2).

            Os cristãos são herdeiros das bênçãos do céu: “Para que a benção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito” (Gl 3.14).

 

 

5 – O Falso Ensino da Maldição Hereditária É Exterminado pela Bíblia

 

             A Bíblia Sagrada, através dos autores inspirados, desclassifica a Maldição Hereditária da autêntica fé cristã.

 

           a) No Livro dos Salmos. Servir a Deus resulta em proteção para nós: “Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas estarás seguro; a sua verdade será o teu escudo e broquel” (Sl 91.4). Maldições não se apossam do nosso lar: “Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda” (Sl 91.10).

 

         b) Em Provérbios. Deus não quer saber as iniquidades que os crentes praticaram no passado, porém Seus filhos serão abençoados: “O justo anda na sua sinceridade; bem-aventurados serão os seus filhos depois dele” (Pv 20.7). A maldição não habita na casa justo, antes, é cheia de bênção: “A maldição do SENHOR habita na casa do ímpio, mas a habitação dos justos abençoará” (Pv 3.33). Depois que o homem arrependeu-se de praticar o pecado, as suas causas foram tiradas. Não tem o porquê de maldições longínquas afetarem os descendentes do cristão devoto e professo: “Como ao pássaro o vaguear, como à andorinha o voar, assim a maldição sem causa não virá” (Pv 26.2).

 

        c) Os profetas Ezequiel e Jeremias. Nos tempos dos profetas Ezequiel e Jeremias, existia uma parábola que revelava os filhos ser amaldiçoados pelas prevaricações realizadas pelos pais em desobediência ao regime judaico: “Que pensais, vós, os que usais esta parábola sobre a terra de Israel, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram?” (Ez 18.2; Veja também Jeremias 31.29). “Uvas verdes” — expressão que representa as impiedades produzidas pelos judeus; “dentes embotados” — retrata que os filhos eram amaldiçoados por causa dos pecados dos pais. No entanto, o Altíssimo bradou: “Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que nunca mais direis esta parábola em Israel” (Ez 18.3). Isto é um pingo d’água a derrubar o castelo levantado pelos promotores da Maldição não Quebrada. Cada pessoa será responsável pelos seus próprios erros e ações, e nunca pelos de outrem.

           Deus foi mais além e explícito quando revelou a verdade a Jeremias, a proibir esse provérbio: “Mas cada um morrerá pela sua iniquidade; de todo o homem que comer as uvas verdes os dentes [dele] se embotarão” (Jr 31.30). Nenhuma pessoa paga pelo erro da outra! O Todo-Poderoso quis dizer que a responsabilidade é pessoal e intransferível: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” (Ez 18.20). Onde fica a Maldição Hereditária, hem!

 

        d) Jesus Cristo, o Verbo da Vida. O Senhor Jesus mora em nossas vidas desde o dia e que O aceitemos: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada” (Jo 14.23). Como a Maldição de Família pode habitar nos servos dEle? “Que concórdia há entre Cristo e Belial?” (2 Co 6.15). Se Jesus está conosco maldições não nos afetam, pois não resistem à presença de Cristo — nosso Eterno Redentor, “mas [Ele] livra-nos do mal” (Lc 11.4).

         Enfermidades, doenças, males e danos no viver não querem dizer maldição herdada dos antepassados. Jesus, nesse ponto, foi categórico quando disse que cada homem dará conta de seus próprios erros e ações no Último Dia, e não dos de outrem: “Mas eu vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem [eles] hão de dar conta no dia do juízo. Porque por tuas palavras [tu] serás justificado, e por tuas palavras [tu] serás condenado” (Mt 12.36,37). Pode alguém prestar contas por você? — Não!

          Trouxeram, certa vez, um cego de nascença a Jesus, “e os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo 9.2). Cristo respondeu e desfez quaisquer suspeitas de erros e transgressões dos ancestrais daquele cego que o fazia estar naquela situação. Nada tinha a ver a situação atual dele com os erros de seus ascendentes: “Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9.3).

          Esse seria um caso basilar para assentar a Maldição de Geração, porém simplesmente o Salvador Jesus reduziu essa crendice a cinzas!

 

         e) O Apóstolo Paulo. Foi quando do apregoamento da responsabilidade pessoal, e que ninguém dará contas por erros de outrem, o Apóstolo Paulo rechaçou o ensino do Pecado de Geração: “De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus” (Rm 14.12).

           O mal dos ascendentes (pais, avós, bisavós, trisavós) não tem como afetar seus descendentes (filhos, netos, bisnetos, trinetos) — se não houver imitação da parte deles —, quanto mais os convertidos à Graça de Jesus, porque romperam com as obras do pecado: “Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.1). Os que confiam nesta palavra estão seguros: “nenhuma condenação nenhuma existe” para eles!

          O aceitamento de Cristo pôs fim no velho homem e limpou o nosso passado: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Co 5.17); “Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos” (Cl 3.9), de modo que somos templos do Espírito Santo: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16). Como maldições terão o poder de permanecer no corpo que é o santuário do Divino Espírito Santo?!

 

        f) O Apóstolo João. Este apóstolo salientou que recebemos Jesus pela fé: “Estas coisas vos escrevi a vós, os que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna, e para que creiais no nome do Filho de Deus” (1Jo 5.13). Visto que “somos de Deus” (1Jo 5.19), espíritos malignos, que estavam em nossos ancestrais, não podem afetar-nos nem lançar maldições contra nós: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; as o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca” (1Jo 5.18). Se isto acontecesse, adiantaria deixar os prazeres carnais, o mundanismo, o egocentrismo, as vis concupiscências e servir a Deus? Logo, “o testemunho de Deus é maior” (1Jo 5.9).