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Coaduna-se com a santidade cristã — a Copa do Mundo?

Por Johny Mange

 

 

2) As Origens do Futebol de Hoje

 

a) O impedimento. Aparece em 1867. É o espírito do fair play britânico: fica “fora do jogo” (offside) quem adota comportamento furtivo e se esconde nas costas do adversário para fazer o gol. Era preciso haver três adversários entre a linha de fundo e o atacante no momento em que este é lançado.

 

b) O juiz. O árbitro entra em cena em 1868. Anteriormente, as decisões eram consensuais entre os jogadores ou tomadas por capitães dos times, mas com a criação do impedimento foi preciso que alguém fora do campo tivesse visão abrangente da jogada para saber se ela era legal ou não. O juiz, portanto, nos primeiros jogos do futebol ficava fora do campo e só atuava sob consulta dos times. Apenas em 1881 é que ele passa a atuar dentro do campo.

 

c) Goleiro. Nos primeiros tempos jogava-se no 1-10, ou seja, um defensor (o back, literalmente “aquele que fica atrás”; diz-se, “beque” em português) e dez atacantes. O jogo estava voltado para a ofensiva total. Em 1862, em Sheffield, um jogador do time foi autorizado a pegar a bola com as mãos. Surgia, ainda que como exceção, o goleiro, chamado também de guarda-redes. Em 1871, a posição é oficializada. Só a partir de 1912 é que ele passa a não poder mais usar as mãos fora da área.

 

d) Escanteio. É criado em 1872 para tornar o jogo mais ágil e atraente, como forma de, ao mesmo tempo, punir um ato defensivo pouco elaborado e premiar o ataque. No mesmo ano, definiu-se medida e peso da bola do jogo: o espírito padronizador da Revolução Industrial não poderia deixar de se manifestar no futebol.

 

e) Driblar ou passar? Em 1876, abandona-se o dribbling game, a forma individualista de os ingleses jogarem, no qual o desempenho pessoal era mais importante que o coletivo. A partir de então prevaleceu o passing game, o jogo solidário dos operários escoceses, que provava sua incontestável superioridade: nas 16 primeiras partidas entre os dois selecionados houve dez vitórias da Escócia, quatro empates e apenas dois sucessos na Inglaterra.

 

f) Duração do jogo. Em 1877 fixou-se a duração de cada partida em 90 minutos, embora fosse aceitável um tempo menor por acordo mútuo. Em 1896, o mundo do futebol aceitou que as partidas podiam ter algum tempo além dos 90 minutos regulamentares. A decisão da International Board assentava-se em dois princípios básicos para a civilização ocidental. De um lado, o critério da justiça. De outro, o critério capitalista, pois o que se faz é uma posição do tempo perdido.

 

g) O apito. Desde o início, o futebol conheceu práticas que se incorporaram a ele como se fossem outras regras. É o caso do apito do árbitro, usado pela primeira vez em 1878, durante um Nottinghan Forest versus Sheffield United.

 

h) Demarcação do campo. Da mesma forma que na política da época a delimitação mais exata das fronteiras era a preocupação constante, o futebol estabelece a demarcação do campo em jogo em 1890. O campo ganha fronteiras internas em 1902 com o aparecimento da pequena área, da grande área, do circulo central, da linha central e da marca de pênalti. Em 1913, estabelece-se a distância mínima de 10 jardas (9,14 metros) entre o adversário e a bola na cobrança de falta.

 

i) O gol. Uma fita começa a ser usada como travessão em 1865. Dez anos depois, impôs-se uma inovação do football praticado em Sheffield: o travessão de madeira substitui a fita. As redes passam a guarnecer os gols só em 1890. Razão esta, também, de o goleiro ser chamado de guarda-redes.

 

j) O pênalti. Uma interessante tentativa de evitar a concorrência desleal surge em 1891: a cobrança de pênalti. “Seria o pênalti uma expressão metafórica de um fuzilamento?” — pergunta o historiador Hilário Franco Júnior. O suposto modelo militar do pênalti pode explicar a aparente contradição de ele ter sido sugerido por um goleiro, o irlandês William McCrum.

 

K) O futebol introduzido nos meios de comunicação e a numeração das camisas. Em 1927 começa a era do rádio no futebol: a BBC transmite um jogo pela primeira vez. Na Copa de 1950, disputada no Brasil, uma mudança aparentemente pequena entra em campo: a numeração torna-se obrigatória na camisa dos jogadores. Esse fato expressava um dado novo, de enorme alcance: a crescente importância dos meios de comunicação, que precisa identificar mais facilmente cada jogador.

 

 

3) O Verdadeiro Resultado da Copa do Mundo

           O verdadeiro resultado da Copa do Mundo não é aquele que será dado no último jogo, ou seja, na final; mas aquele que, à vista de todos, foi dado pelos gastos em coisas fúteis, banais e supérfluas. Os estádios, que custaram bilhões, ajudarão a atenuar a pobreza, a conter o número de mortes e conceder formação superior a alguém? Portanto, veja o exato resultado do Mundial.

 

          a) Curitiba (PR). Estádio “Arena da Baixada”, com capacidade para 41.456 pessoas. Cada assento nesse estádio sai, em média, R$ 7,8 mil. A Arena Baixada custou 326 milhões de reais. Enquanto isso, em Curitiba, do total de 1.848.942 habitantes:

* a pobreza corresponde 1,7% da população,

* 11,9 é o número de mortes por mil nascimentos e

* 28,6% é o número dos jovens (de 18 a 24 anos) no ensino superior. 7

 

            b) Natal (RN). Estádio “Arena das Dunas”, com aptidão para acolher 42.086 pessoas. Cada assento nesse estádio sai, em média, R$ 9,5 mil. A Arena das Dunas teve o custo de 400 milhões de reais. No mesmo instante em que esse fato acontece, em Natal, do total de 853.929 habitantes: 

* a pobreza corresponde 10,5% do povo,

* 14,4 é o número de mortes por mil nascimentos e

* 21,2% é o número dos jovens (de 18 a 24 anos) no ensino superior. 8

 

           c) Manaus (AM). Estádio “Arena Amazonas”, com capacidade para 42.374 pessoas. Cada assento nesse estádio sai, em média, R$ 15,7 mil. A Arena Amazonas custou 669 milhões de reais. Enquanto isso, em Manaus, do total de 1.982.179 habitantes:

* a pobreza corresponde 12,9% da população,

* 14,2 é o número de mortes por mil nascimentos e

* 15,6% é o número dos jovens (de 18 a 24 anos) no ensino superior.

 

          d) Cuiabá (MT). Estádio “Arena Pantanal”, com aptidão para acolher 42.968 pessoas. Cada assento nesse estádio sai, em média, R$ 13,2 mil. A Arena Pantanal teve o custo de 570 milhões de reais. No mesmo instante em que esse fato acontece, em Cuiabá, do total de 569.831 habitantes:

* a pobreza corresponde 5,3% do povo,

* 15,5 é o número de mortes por mil nascimentos e

* 24,5% é o número dos jovens (de 18 a 24 anos) no ensino superior. ¹º

 

            e) Recife (PE). Estádio “Arena Pernambuco”, com capacidade para 44.248 pessoas. Cada assento nesse estádio sai, em média, R$ 12 mil. A Arena Pernambuco custou 532 milhões de reais. Enquanto isso, no Recife, do total de 1.599.514 habitantes:

* a pobreza corresponde 13,2% da população,

* 15,6 é o número de mortes por mil nascimentos e

* 19,8% é o número dos jovens (de 18 a 24 anos) no ensino superior. ¹¹

 

           f) Salvador (BA). Estádio “Arena Fonte Nova”, com aptidão para acolher 48.747 pessoas. Cada assento nesse estádio sai, em média, R$ 14,1 mil. A Arena Fonte Nova teve o custo de 689 milhões de reais. No mesmo instante em que esse fato acontece, em Salvador, do total de 2.883.672 habitantes:

* a pobreza corresponde 11,4% do povo,

* 14,9 é o número de mortes por mil nascimentos e

* 17,1% é o número dos jovens (de 18 a 24 anos) no ensino superior. ¹²

 

            g) Porto Alegre (RS). Estádio “Beira Rio”, com capacidade para 48.849 pessoas. Cada assento nesse estádio sai, em média, R$ 6,7 mil. O Beira Rio custou 330 milhões de reais. Enquanto isso, em Porto Alegre, do total de 1.467.823 habitantes:

* a pobreza corresponde 3,8% da população,

* 11,6 é o número de mortes por mil nascimentos e

* 25,3% é o número dos jovens (de 18 a 24 anos) no ensino superior. ¹³

 

            h) Belo Horizonte (MG). Estádio “Mineirão”, com aptidão para acolher 62.547 pessoas. Cada assento nesse estádio sai, em média, R$ 10,6 mil. O Mineirão teve o custo de 666 milhões de reais. No mesmo instante em que esse fato acontece, em Belo Horizonte, do total de 2.479.175 habitantes:

* a pobreza corresponde 3,8% do povo,

* 13% é o número de mortes por mil nascimentos e

* 25,9% é o número dos jovens (de 18 a 24 anos) no ensino superior. 14

 

           i) Fortaleza (CE). Estádio “Castelão”, com capacidade para 64.846 pessoas. Cada assento nesse estádio sai, em média, R$ 7,9 mil. O Castelão custou 518 milhões de reais. Enquanto isso, em Fortaleza, do total de 2.551.805 habitantes:

* a pobreza corresponde 12,1% da população,

* 15,8 é o número de mortes por mil nascimentos e

* 16,3% é o número dos jovens (de 18 a 24 anos) no ensino superior. ¹⁵

 

            j) São Paulo (SP). Estádio “Arena Corinthians”, com aptidão para acolher 65.807 pessoas. Cada assento nesse estádio sai, em média, R$ 12,4 mil. A Arena Corinthians teve o custo de, aproximadamente, 820 milhões de reais. No mesmo instante em que esse fato acontece, em São Paulo, do total de 11.821.876 habitantes:

* a pobreza corresponde 4,3% do povo,

* 13,2% é o número de mortes por mil nascimentos e

* 20% é o número dos jovens (de 18 a 24 anos) no ensino superior. ¹⁶

 

             k) Brasília (DF). Estádio “Mané Garrincha”, com capacidade para 68.009 pessoas. Cada assento nesse estádio sai, em média, R$ 20,5 mil. O Mané Garrincha custou em torno de 1 bilhão e 400 milhões de reais. Enquanto isso, em Brasília, do total de 2.789.761 habitantes:

* a pobreza corresponde 4,9% da população,

* 14% é o número de mortes por mil nascimentos e

* 24,6% é o número dos jovens (de 18 a 24 anos) no ensino superior. 17

 

             l) Rio de Janeiro (RJ). Estádio “Maracanã”, com aptidão para acolher 76.804 pessoas. Cada assento nesse estádio sai, em média, R$ 13,6 mil. O Maracanã teve o custo de 1 bilhão e 50 milhões de reais. No mesmo instante em que esse fato acontece, no Rio de Janeiro, do total de 6.429.922 habitantes:

* a pobreza corresponde 5% do povo,

* 13% é o número de mortes por mil nascimentos e

* 20,3% é o número dos jovens (de 18 a 24 anos) no ensino superior. 18

 

Continuação