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O Culto Pagão Introduzido na Páscoa

Por Johny Mange

 

I – A Páscoa de Nosso Senhor

 

 

1 - A Páscoa Consoante o Judaísmo

            Era a comemoração do livramento dos israelitas do Egito. Começava no 14º à tarde, isto é, no princípio do 15.º dia de Abibe ou Nisã, com a refeição sacrificial, quando um cordeiro ou um cabrito inteiro era assado e comido pelos membros de uma família com ervas amargas e pães asmos; nessa ocasião o chefe da família contava a história da redenção do Egito com os milagres das pragas e a abertura do mar por intermédio de Moisés. Os sacrifícios significavam expiação e dedicação. As ervas amargas faziam lembrar a amargura da servidão egípcia, e os pães asmos simbolizavam a pureza (cf. Lv 2.11). ¹

 

 

2 – O Senhor Jesus Cristo: Nossa Páscoa

            Em hebraico, Páscoa significa Pessach, cujo sentido é passar por cima. Isso concerne a décima praga enviada por Deus ao Egito. Um anjo passaria pelas casas e mataria todos os primogênitos. Todavia, aos hebreus, o Altíssimo preparou um escape. Nas casas, as ombreiras e padieiras que tivessem o sinal do sangue de um cordeiro, o anjo destruidor não mataria o primogênito daquela casa; por isso, “pessach”, quer dizer, “passaria por cima”, e o primogênito obteria o livramento de morte.

            O Novo Testamento revela que Cristo é a nossa Páscoa (1Co 5.7). O sentido, os rituais e os elementos da Páscoa prefiguravam a Pessoa do Senhor Jesus e a Sua Obra no Calvário por nós. Por conseguinte, tudo se cumpriu em Cristo (Lc 23.44,45). Uma explanação de Êxodo 12, à luz do Novo Testamento, elucida que Cristo é o nosso Cordeiro Pascoal.

 

           a) Páscoa: nova contagem de tempo. Este mesmo mês vos será o princípio dos meses; este vos será o primeiro dos meses do ano (Ex 12.2). Aquele que recebe o Senhor Jesus (Jo 1.12), nele se inicia uma nova contagem de vida (2Co 5.17). Deus faz novas todas as coisas (Ap 21.5). O novo nascimento (Jo 3.3) propicia uma nova contagem de tempo — dos tempos de refrigério na presença do Eterno (At 3.19).

 

           b) Páscoa: cada um devia tomar um cordeiro. Caso a família fosse pequena para um cordeiro, tinha de unir-se com o vizinho (Ex 12.3). Jesus, o Ungido de Deus, é descrito nas Santas Escrituras como o “Cordeiro de Deus” (cf. Jo 1.29,36; Is 53.7; At 8.32,33). No Apocalipse, o título de Cordeiro é dado a Cristo cerca de 29 vezes. Cordeiro descreve Jesus Cristo como gentil, extremamente dócil, compassivo, dedicado, submisso à Sua missão, humilde, que sofreu inocentemente e morreu como substituto do ser humano, a fito de expiar os seus pecados. Logo, o Filho de Deus é o nosso Cordeiro Pascoal, ou Cordeiro Pascal.

 

           c) Páscoa: o sangue do cordeiro era passado nas ombreiras e nas vergas das portas dos hebreus. À meia noite um anjo passaria pelas casas de todos, onde não houvesse o sangue do cordeiro — a vida do primogênito seria tirada (Ex 12.12,13,29). Emílio Conde enfatizou: “Meia-noite é uma palavra composta que se encontra na Bíblia e que é de alta significação, por causa dos acontecimentos que se registraram a essa hora [...] a última praga que Deus enviou sobre o Egito [foi] à meia-noite; foi esse acontecimento da meia-noite que fez com que Faraó deixasse o povo escravo sair do Egito.” ² O sangue sobre as ombreiras e as pavieiras das portas, era o sinal de obediência ao Altíssimo, pois ali um substituto havia morrido no lugar do primogênito, o qual lhe tinha tirado a culpa; portanto, o anjo não podia dar cabo da vida dele. Jesus — o Cordeiro Pascal — é o substituto de toda a humanidade (1Pd 2.21-24; Hb 9.28). Veio ao mundo como homem, na plenitude dos tempos (Jo 1.14; Gl 4.4), para pagar a dívida do pecado, que tinha sido contraída no Éden (Gn 3.6-15; Cl 2.14,15). E assim o fez na cruz, uma vez que a morte do Senhor foi vicária, isto é, substituiu-nos a satisfazer a justiça de Deus (Jo 19.30; 1Pd 3.18). A Bíblia ratifica: Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira (Rm 5.8,9).

 

           d) Páscoa: a carne do cordeiro era assada. À semelhança do cordeiro assado na Páscoa (Ex 12.8), Jesus, o Nazareno, em sentido figurado, foi “assado” para conceder livramento da pena do suplício eterno ao ser humano. Ele — a caso de realizar a Sua Obra gloriosa na cruz — foi maltratado, desprezado, experimentado nos trabalhos, dolorido, aflito, ferido, oprimido, moído por nossas transgressões (Is 53.3-5).

 

            e) Páscoa: a carne assada do cordeiro era comida com pães ázimos (ou asmos), qual seja, sem fermento. Na Palavra de Deus, “fermento é invariavelmente usado para representar algo que é ruim, corrupto ou insatisfatório [...] O fermento é usado como um símbolo do pecado, em sua essência [...] Uma razão natural para essa proibição é encontrada no fato de que a fermentação implica um processo de corrupção.” ³ Entretanto, Cristo Jesus, em Sua missão terrena, permaneceu “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime do que os céus” (Hb 7.26); “O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” (1Pd 2.21). Os pães ázimos tipizavam a impecabilidade do Jesus, o Cordeiro. O hino 382, da Harpa Cristã, atesta: “Ó, Cordeiro imaculado, que morreste sobre a cruz”.

 

            f) Páscoa: comia-se a carne assada do cordeiro com ervas amargas. Tais ervas amargas (Ex 12.8) denotam a parte humana de Jesus sofrendo agonia, amargura; Ele se agonizando e se angustiando antes da crucificação: [Jesus] começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte (Mt 26.37,38). Semelhantemente, pregado na cruenta cruz, estava sob dolorosa agonia: Depois, sabendo Jesus que já todas as coisas estavam terminadas, para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede. Estava, pois, ali um vaso cheio de vinagre. E encheram de vinagre uma esponja, e, pondo-a num hissope, lha chegaram à boca (Jo 19.28,29).

 

            g) Páscoa: para participar, era necessário estar com os trajes completos, adequados à saída do Egito. Assim, pois, o comereis: Os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés, e o vosso cajado na mão; e o comereis apressadamente; esta é a páscoa do SENHOR (Ex 12.11). Os trajes espirituais do Cristo de Deus estavam preparados, quer dizer, após a completitude da Obra da Redenção do pecador, entregou, vitorioso, o espírito ao Pai, porquanto tinha cumprido o Plano de Salvação: E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito [...] clamando Jesus com grande voz, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou (Jo 19.30; Lc 23.46). O espírito sobrevive à morte do corpo (Mt 10.28; Ec 12.7; 2Co 5.8), portanto, Jesus Cristo foi para o Céu, em espírito, no dia em que morreu, enquanto Seu corpo estava na sepultura a dormir, esperando ser despertado pela ressurreição (Jo 2.19-21; 1Co 15.20; Mt 28.1-8). O que dorme é o corpo, e não a alma e o espírito (Mt 27.52; Dt 34.5,6 comp. Mt 17.1-3; At 7.59,60 comp. 8.2). Quando Ele disse à Maria Madalena: “Ainda não subi para meu Pai” (Jo 20.17), referia-se à ascensão de Seu corpo à Glória, visto que a ascensão do Senhor ocorreu 40 dias depois de Sua morte (At 1.3,9-10). Sendo assim, a parte imaterial de Cristo Jesus — espírito e alma (Mt 27.50; 26.38), já tinham subido ao céu (Lc 23.43,46), mas o Seu corpo ainda não. Razão de Ele haver dito à Madalena: “Não me toques” (Jo 20.17, Versão Brasileira), que somente poderia ser em Seu corpo...

           

            h) Páscoa: nenhum osso do cordeiro podia ser quebrado. O cordeiro da páscoa, sem dúvida, era o antítipo de Cristo: O Cordeiro de Deus, o nosso Cordeiro Pascoal! Em cumprimento a Êxodo 12.46: Numa casa se comerá; não levarás daquela carne fora da casa, nem dela quebrareis osso —, nenhum osso de Cristo foi quebrado, pois ressurgiu corporalmente (Lc 24.3-7, 36-45), vivificado, isto é, trazido à vida, vencendo o poder da sepultura, pelo poder do Espírito Santo (Rm 8.11; 1Pd 3.18). A Bíblia diz: Mas [os soldados], vindo a Jesus, e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas. Porque isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: Nenhum dos seus ossos será quebrado (Jo 19.33,36).

 

            i) Jesus Cristo — Nosso Cordeiro Pascal: Hoje todo o ritualismo em torno da páscoa para o Cristianismo não tem valor, uma vez que eram “sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas” (Hb 10.1), cumpridas inteiramente na Pessoa de Cristo: E disse-lhes [Jesus]: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas, e nos salmos. Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras (Lc 24.44,45). A nossa Páscoa é o Senhor Jesus Cristo, o Cordeiro Divinal: Porque Cristo, Nossa Páscoa, foi sacrificado por nós (1Co 5.7).

 

 

3 – Devemos guardar a festa da Páscoa?

            As expressões “Lei de Deus”, “Lei de Moisés” e “Lei” são sinônimas, e não três leis diferentes nas quais se pode dizer que há mandamentos abolidos em uma e alguns que permanecem em vigor em outra. Isso é invencionice. Veja Neemias 8.1,2,8,14,18, em que a mesma Lei indistintamente é exposta por essas expressões. Há uma só Lei, e esta própria possui preceitos morais, civis e cerimoniais. E mesmo os que defendem (sem apoio algum nas Escrituras) a distinção da Lei em três categorias: lei cerimonial (o Pentateuco) e lei moral (os dez mandamentos) e lei civil, o fazem apenas por descrição funcional, “mas não fica absolutamente claro que os escritos do Antigo ou do Novo Testamento classificam as leis do Antigo Testamento nessas categorias com precisão suficiente para que se possa determinar concordâncias ou discordâncias com bases nessas distinções.” 4   Por consequência, é melhor ficar com os respaldos bíblicos, pois são mais lógicos e precisos para afirmarem que existe apenas uma Lei, e não três leis; no entanto, uma Lei com ordenanças morais, civis e cerimoniais, porquanto se arrazoa, assim, ainda, pelo fato de ser um só Legislador (Tg 4.12; Is 33.22).

            Jesus veio mundo e viveu sob a Lei (Gl 4.4). Portanto, é cabível que Ele a guardou; todavia, cumpriu-a em sua totalidade por nós (Lc 16.16; Rm 10.4; 6.14), deixando ao cristão a “Lei de Cristo” (1Co 9.21; Gl 6.2), que, nesta, não pecaremos à vontade, mas seguiremos, sem restrições, os mandamentos conservados pelo Senhor Jesus na Nova Aliança (Rm 6.17-23).

 

           a) Lei serviu apenas de aio. A Lei serviu apenas de aio. Aio, na cultura greco-romana, era um servo, um tutor de confiança da família, cujo era lhe entregue uma criança, da qual tomaria conta e conduziria os seus passos dos 6 aos 16 anos. Ele supervisionava-lhe a conduta. Guiava-a pelos trilhos da ética, da moral, da disciplina e a guardava dos males advindos. Aos 16 anos, já estava livre totalmente do aio. Em suma, a Lei serviu não para ser mestra, porém uma tutora, pedagoga, que serviu para guardar os judeus da corrupção até a chegada do Filho de Deus. A Lei guiou-os, impondo-lhe disciplinas até Cristo vir, como apontavam as profecias.

            Agora, Cristo já veio! Os cristãos estão livres da Lei, porque “a graça de Deus se manifestou” (Tt 2.11). Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da Lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar. De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados. Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio (Gl 3.23-25).

 

            b) Não é ordenado aos cristãos guardar festas anuais, nem mensais, nem dias do Judaísmo. A Escritura não impõe aos cristãos, de forma alguma, a guarda de festas judaicas anuais, mensais, nem a guarda do sábado. Na Graça de Deus, não se guardam dias como santos: Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo (Cl 2.16,17). Haja vista: cada partícula de Colossenses 2.16, trazida a lume e corretamente interpretada por outras citações das Escrituras:

 

 

1) “Dias de festas” diz respeito às festas judaicas anuais do Judaísmo, que são estas: Festa da Páscoa (Lv 23.5-7), Festa dos Asmos (Lv 23.8), Festa do Pentecostes (Lv 23.15-16), Festas das Trombetas (Lv 23.23-25), Festa da Expiação (Lv 23.26-32), Festa dos Tabernáculos (1.º dia) e Festa dos Tabernáculos (ultimo dia – Lv 23.24-36).

 

2) “Lua nova” (que aparece de 28 a 30 dias, principiando o mês) refere-se às festas mensais.

 

3) “Sábados” é concernente ao sábado semanal. “Dias de festas, lua nova e sábados”, portanto, é uma expressão para descrever os feriados judaicos anuais, mensais e semanais. Tal fórmula é apresenta também o Antigo Testamento (1Cr 23.31; 2Cr 2.4; Ez 45.17; Os 2.11).

 

Todas as festas judaicas (incluindo a Páscoa) e o sábado não passavam de sombra, que tiveram sua projeção total em Jesus. “Todas as vezes que o termo sombra é usado em relação à lei é para dizer que a sombra acabou, mas o original que, neste caso, é o corpo, permanece. Em Hebreus 8.5 o sistema mosaico inteiro é chamado de sombra. Em Hebreus 10.1 a lei é chamada de sombra. Em nenhum desses casos alguém vai objetar dizendo que a sombra ainda permanece depois que Cristo veio. Percebemos a mesma linguagem em Colossenses 2.16,17 onde os dias sagrados judaicos são sombras em contraste com Cristo que é o corpo.” ⁵

Os que teimam hoje em guardar o sábado, um claro ressurgimento duma prática judaica, caem na ponta da espada da própria Lei, uma vez que o sábado devia ser guardado em casa (Ex 16.29) — caso saísse, devia caminhar cerca de um quilômetro apenas (At 1.12), não podia acender fogo (Ex 35.3) (isso envolve para um judeu ortodoxo – não andar de carro, nem acender uma lâmpada — que equivale a acender lume, até os elevadores param sozinhos em cada andar, etc.), nem fazer viagens (Ne 10.31), nem tratar de negócios (Ne 13.15-16), nem carregar peso (Jr 17.21); nem fazer transações comerciais (Am 8.5); os que guardam o sábado têm de fazer seus empregados também guardarem (Ex 20.10). Tudo isso (ou alguma dessas coisas), hoje em dia, é feito pelos atuais sabatistas (quer adventistas dos sétimo dia, quer adventistas da reforma, quer adventistas da promessa, quer testemunhas de Yehoshua, quer batistas do sétimo dia, quer a Igreja de Deus do Sétimo Dia, etc); portanto, à luz da Bíblia, eles estão sob a maldição da Lei (Tg 1.23; Gl 3.10). Pela Lei nenhuma carne há de ser justificada (Gl 3.11,12). É por isso que o sábado é um sinal entre Deus e os judeus, somente (Ex 31.14-16; Ez 20.12).

 

             c) Guardar dias e festas — rudimento fraco e doente. O apóstolo Paulo diz: Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. Receio de vós, que não haja trabalhado em vão para convosco (Gl 4.9-11).

 

            Portanto, nem mesmo a Festa da Páscoa deve ser guardada. Cristo atualmente é a nossa Páscoa, e a Lei e suas ordenanças tiveram fim em Sua Pessoa (2Co 3.6-14; Hb 8.6-13). Os requisitos da Páscoa foram de todo cumpridos no Cristo de Deus. A Lei e suas ordenanças foram cravadas na cruz do Calvário, sendo totalmente cumpridas por Jesus (Cl 2.14,15), como vimos acima.

            Ainda que falemos da morte e da ressurreição do Senhor nos dias a que antecedem e na própria Páscoa (1Co 15.2-4, 12-17; Jo 20.1-18) — o que é inteiramente normal, pois representa o ato do Cordeiro de Deus imolado pelo pecador (porém ressuscitado ao terceiro dia) — não faz jus, em hipótese alguma, ressuscitarmos práticas judaicas concernentes à Páscoa, já que o sentido dela, no Cristianismo, encerrou-se no Senhor Jesus (1Co 5.7).

 

CONTINUAÇÃO